Apagão na Engenharia
24 de dezembro de 2025, às 15h30 - Tempo de leitura aproximado: 12 minutos

O Termo apagão já é bem conhecido dos Brasileiros, me refiro aos mais velhos, claro. Aprendemos que apagão significa falta. Nossa memória nos remete a falta de energia elétrica na década de 90.
Falta de qualquer coisa é sempre ruim e em se tratando de uma mão-de-obra qualificada como na área de engenharia é muito preocupante. Na área de engenharia ou tecnologia, podemos qualificar como a falta de cérebros-de-obra.
Recentemente o Conselho Federal de Engenharia ( CONFEA), participou de audiência na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados para discutir a aprendizagem de matemática e o novo Plano Nacional de Educação (PNE). A iniciativa partiu de deputados, que destacaram, em requerimento, a ausência de menção à disciplina matemática em metas ou estratégias voltadas à Educação Básica no texto do PNE 2024–2034. O representante do Confea, falou da preocupação da entidade com a qualidade da formação profissional nas áreas de engenharia, agronomia e geociências. “Temos tido uma preocupação real e muito forte com a qualidade da nossa formação. Somos o Conselho que prima pela questão da qualidade da segurança dos serviços de engenharia, agronomia e geociências, que envolve modalidades profissionais que atuam diretamente no desenvolvimento do nosso país, com foco na melhoria da qualidade de vida das pessoas, quer seja na área de água e saneamento, habitação de todos os tipos, inclusive habitação de interesse social, produção de alimentos, geração de energia e na inovação e tecnologia”, comentou.
O representante do Confea alertou ainda para um possível déficit significativo de profissionais de engenharia, agronomia e geociências no Brasil nos próximos anos, o que pode comprometer o desenvolvimento nacional. “Temos alguns estudos que apontam que em breve teremos um déficit de 400 mil profissionais no país. E pasmem: temos uma evasão de aproximadamente 400 mil estudantes nos cursos de engenharia. Parte da barreira disso tem sido essa base de formação no ensino fundamental, sobretudo a questão da matemática”, ressaltou.
Dados recentes evidenciam um cenário preocupante para o ensino de matemática no Brasil. Em 2023, apenas 44% dos alunos da rede pública tiveram aprendizado adequado nos anos iniciais do Ensino Fundamental, índice que cai para 16% nos anos finais e para apenas 5% ao concluir a Educação Básica — mesmo na rede privada, o percentual é baixo, de 31%. No ranking de 2022 do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), o país ocupa a 65ª posição entre 81 participantes, com apenas 27% dos estudantes atingindo o nível básico de proficiência, frente a 69% na média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No evento da SOEA ( Semana Oficial da Engenharia e Agronomia), em outubro de 2025 em vitória /ES, o presidente do CONFEA voltou a falar sobre o tema. O diagnóstico apontado pelo CONFEA é a evasão escolar pelas dificuldades no aprendizado no ensino das disciplinas das ciências exatas, formação de professores etc.. Na linha do diagnóstico apontado pelo CONFEA, o SESI/CNI (Sistema Nacional de Ensino Industrial) da Confederação Nacional da Industria, aponta também para o déficit na formação de profissionais na área de engenharia: “O Rio Grande do Sul vive um momento decisivo para o seu desenvolvimento. O Estado precisa acelerar obras, fortalecer a indústria e investir em inovação, mas falta um ingrediente essencial: profissionais formados para liderar essa transformação. Segundo dados do Observatório Nacional da Indústria/SENAI-CNI e do CREA-RS, o Brasil tem hoje um déficit de cerca de 75 mil engenheiros. “E no território gaúcho, a demanda por profissionais qualificados cresce de forma constante, impulsionada por novos projetos de infraestrutura, sustentabilidade e modernização produtiva”.
É patente o risco de um apagão muito grave na engenharia, quero aqui, no entanto analisar o diagnóstico apontado pelas entidades acima e também pelo órgão oficial de educação, MEC, de que a evasão e a baixa atratividade nos cursos de engenharia seja pelas dificuldades no aprendizado da disciplina de matemática.
À análise do diagnostico apontado tanto pelo CONFEA e observatório nacional da indústria/SESI, acredito que é necessário aprofundar um pouco mais. O diagnostico apontado, me parece que é um dos elementos para o déficit de formandos em engenharia, não é o único e em minha opinião não é o principal. A deficiência na formação básica dos jovens é sim a primeira parte do problema.
As raízes e o fator principal do desinteresses são outras. Quero aqui introduzir no debate um elemento, que a meu ver, é o principal para o desinteresse dos jovens na formação de engenheiros. A Estrutura do Estado Brasileiro, que emergiu da constituição de 1988.
O Estado Brasileiro privilegiou a carreira jurídica. Na minha avaliação este é o problema maior do desinteresse da juventude pelas áreas das ciências exatas.
Vamos aos fatos: Com auxilio da IA, pontuamos os aspectos que entendemos serem os nós que impedem a grande maioria dos jovens procurarem os cursos de engenharia.
Os cursos de engenharia são reconhecidos por sua alta carga de matemática, física e disciplinas técnicas, o que leva muitos estudantes a evitá-los.
O ensino médio brasileiro, em geral, não prepara adequadamente os alunos nessas áreas. Isso causa altas taxas de evasão (abandono) nos primeiros semestres — em algumas instituições, chega a mais de 50%.
Os salários de engenheiros recém-formados nem sempre são compatíveis com o esforço exigido para concluir o curso. Além disso, há instabilidade econômica e industrial, o que reduz oportunidades de emprego e desestimula candidatos.
Desde os anos 1990, o Brasil vem sofrendo um processo de desindustrialização. Menos investimentos em indústria significam menos vagas para engenheiros. Isso gera uma percepção de falta de oportunidades e afasta novos estudantes da área. O déficit começa antes da universidade e nisso concordo com o diagnóstico das entidades que citei acima. Muitos estudantes abandonam a escola ou não atingem o nível necessário em matemática e ciências para competir por vagas de engenharia.
Isso reduz o número de candidatos com base sólida para o curso.
A engenharia é a espinha dorsal da indústria e da infraestrutura. Ela está por trás de:
-Construção civil (habitação, saneamento, transporte);
-Energia (geração, transmissão, renováveis);
-Tecnologia e automação industrial;
-Agroindústria, petróleo, mineração e logística.
Sem engenheiros suficientes e qualificados, o país:
-reduz sua capacidade de inovação tecnológica;
-importa mais tecnologia em vez de desenvolvê-la internamente;
-perde competitividade industrial;
-depende de mão de obra e conhecimento estrangeiro.
Com menos engenheiros é menor capacidade de criar riqueza local. Com menos riqueza e com baixo desenvolvimento industrial, menor oferta de empregos de qualidade. Nossa juventude vem sendo cooptada pelo crime organizado. O confronto entre a policia e membros de uma organização criminosa denominada de CV, recentemente no Rio de Janeiro, onde morreram aproximadamente 150 pessoas, os órgãos de segurança apontaram que os mortos trabalhavam para o trafico, por aproximadamente 300 reais/semana. Esta realidade se reproduz no pais inteiro.
Numa economia sem crescimento, os empregos criados são de baixa qualidade, como exemplo podemos citar empregos em Call Center, baixíssima remuneração e pouca exigência em qualificação.
Estudos do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) mostram que a produtividade média do trabalho está fortemente relacionada à proporção de profissionais de engenharia e tecnologia.
Países desenvolvidos têm entre 15% e 30% dos graduados nessas áreas;
O Brasil tem menos de 5%.
Menos engenheiros significa:
-Menos inovação nas empresas;
-Menos projetos de alta complexidade;
-Menos competitividade global.
Com isso, indústrias fecham ou não se modernizam, e o país se torna exportador de commodities (produtos básicos, de baixo valor agregado, mineração e produtos agrícolas).
-O número de empregos qualificados e bem remunerados diminui;
-A economia passa a gerar trabalhos mais simples e de menor renda;
Isso amplia a desigualdade social.
Cada engenheiro gera demanda e produtividade em cadeia:
-Um engenheiro civil bem formado viabiliza obras que empregam centenas de pessoas;
-Um engenheiro de software pode criar uma solução que automatiza e amplia negócios inteiros;
-Um engenheiro agrícola melhora a eficiência da produção de alimentos.
Sem esses profissionais, o país perde capacidade de multiplicar riqueza.
A engenharia, historicamente, foi um instrumento de ascensão social — especialmente em países como Alemanha, Coréia do Sul e China, que apostaram na formação técnica e tecnológica como motor do desenvolvimento.
No Brasil, a queda na procura por engenharia:
-reduz o número de profissionais tecnicamente preparados;
-mantém o país dependente de setores de baixa tecnologia;
-enfraquece a classe média técnica, essencial para o equilíbrio econômico.
Apresentamos alguns dados comparativos entre o Brasil e alguns países.
Alemanha: engenharia como cultura nacional Engenharia é símbolo de identidade nacional (“German Engineering”);
Grandes líderes empresariais e políticos têm formação técnica;
Sistema educacional dual (teoria + prática) integra empresas e universidades;
O Estado ouve e respeita a comunidade técnica. Resultado: indústria moderna, produtividade alta e liderança tecnológica mundial.
Coreia do Sul: o engenheiro como arquiteto do futuro
Após os anos 1960, o país apostou na formação massiva de engenheiros e técnicos;
Presidentes e ministros freqüentemente são engenheiros; Incentivos diretos à indústria tecnológica (Samsung, Hyundai, LG);
Educação técnica valorizada e competitiva. Resultado:
salto de país pobre a potência tecnológica em 50 anos. China:
tecnocracia e planejamento científico Desde Deng Xiaoping (engenheiro), o país é governado por uma elite tecnocrática;
80% dos líderes provinciais e ministros têm formação em engenharia ou ciências;
Foco em infraestrutura, energia, transporte e manufatura avançada;
O engenheiro é visto como símbolo do progresso nacional.
Resultado: rápido crescimento e domínio industrial global.
Países que colocam engenheiros na mesa de decisão constroem riqueza.
Países que colocam juristas em excesso tendem a legislar sobre ela.
O Brasil, ao privilegiar carreiras jurídicas e administrativas, acaba:
-reprimindo o potencial técnico-científico de sua juventude;
-burocratizando o Estado, em vez de torná-lo inovador;
-reduzindo sua capacidade de competir globalmente.
Em contrapartida, países que valorizam a engenharia:
-tornam-se mais produtivos e industrializados;
-geram empregos de alto valor agregado;
-e elevam o padrão de vida de sua população.
Valorização da Engenharia x Desenvolvimento Nacional

O Brasil vai à direção oposta de todos os países que se desenvolveram recentemente. Os números são reveladores:
Curso Número de formandos por ano (aprox.) Proporção no total de graduados
Direito ~120 000 a 140 000 ~10% do total nacional
Engenharia (todas as áreas) ~87 000 (2024) ~5% do total nacional
O Brasil tem mais de 1.200 faculdades de Direito (Isso representa mais que todas as faculdades de direito no restante do mundo). Países como a França ou a Alemanha, têm menos de 100.
Isso cria uma assimetria de oferta educacional: o jovem encontra mais facilidade e mais opções para cursar Direito do que Engenharia, que exige infraestrutura pesada (laboratórios, professores especializados, etc.).
Na estrutura do Estado brasileiro, o Direito tem papel central e prestígio simbólico elevado:
-Carreiras públicas jurídicas (juiz, promotor, defensor, procurador, delegado) são altamente remuneradas e estáveis;
-O campo jurídico domina parte do debate político e social — leis, tribunais, concursos, poder público; -O status social de “doutor” ainda é culturalmente associado ao advogado ou jurista.
Isso transmite aos jovens a mensagem de que o sucesso e a ascensão social passam pelo Direito — não pela engenharia, que aparece como uma profissão técnica, “difícil” e com recompensa mais incerta.
-Direito: ampla oferta de concursos públicos, estabilidade, salários previsíveis.
-Engenharia: mercado privado, instável, sujeito a crises e ciclos de investimento industrial.
Em um país de insegurança econômica e alto desemprego, a busca pela estabilidade pesa muito. Jovens e famílias tendem a enxergar o Direito como investimento mais seguro — mesmo com saturação do mercado de advogados.
O Estado brasileiro valoriza mais as carreiras jurídicas do que as tecnológicas:
O orçamento público é fortemente concentrado em setores jurídico-administrativos; O sistema judiciário consome 1,6% do PIB.
Há poucos incentivos à pesquisa aplicada, inovação e engenharia industrial;
O sistema de concursos premia o conhecimento legal, não o técnicocientífico. Isso cria uma estrutura de poder e prestígio centrada no Direito, o que desequilibra a formação de capital humano. Enquanto países industrializados têm engenheiros em cargos de decisão e formulação de políticas, o Brasil tem juristas. A figura do advogado é associada a poder, liderança e influência política;
A figura do engenheiro, embora respeitada, é associada a trabalho técnico, “de bastidor”.
Esse imaginário social pesa muito nas escolhas de carreira — especialmente entre jovens que buscam reconhecimento e prestígio.
A predominância do Direito como caminho “de sucesso” cria um ciclo autorreforçado:
-Mais prestígio e estabilidade no Direito → mais alunos optam por ele;
-Mais e melhores alunos migram de exatas para humanas;
-Menos demanda por engenharia → menos investimentos e qualidade nos cursos;
Engenharia perde ainda mais atratividade → e o ciclo se repete.
A valorização exagerada das carreiras jurídicas e a estrutura do Estado brasileiro centrada no Direito contribuem para a desvalorização simbólica e prática da engenharia. Essa distorção afeta o equilíbrio do desenvolvimento nacional, pois um país que forma mais juristas que engenheiros tende a:
-ter mais normas que inovação, -mais burocracia que produção,
-e menos capacidade de competir tecnologicamente.
Como ficou explicito, sem engenharia não há desenvolvimento e sem desenvolvimento não há empregos e qualidade de vida.
Sabemos da importância da engenharia na sociedade e, no entanto um projeto de desenvolvimento para o país, está fora do debate público, a engenharia esta fora do debate público, que só discute política macroeconômica, equilíbrio das contas públicas e leis e mais leis, criminalidade etc..Um Projeto de desenvolvimento para o pais não se discute.
Entendo que este assunto do apagão na engenharia merece sim uma analise mais na raiz do problema e que as instituições preocupadas com isso, levem em consideração. Além das dificuldades da juventude com as ciências exatas, a estrutura do Estado Brasileiro, que valorizou demasiadamente as carreiras jurídicas, em detrimentos das carreira na área da engenharia, está na raiz do problema.
A constatação da diminuição do numero de profissionais na engenharia parece ser a oportunidade de ampliar o debate e avaliar a estrutura do Estado Brasileiro, propondo medidas que corrijam as distorções que aprofundam as desigualdades e o atraso tecnológico do Brasil.
Ubiratan Pereira Eng. Florestal – Ex-Presidente do CREA/RO- Ex-Presidente do SENGE/RO.