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Acesso em 11/09/2026 às 06h46.

Crea-RO leva engenharia e segurança do trabalho para dentro do Garimpo Bom Futuro

Câmara Setorial reúne Ministério do Trabalho, Crea-RO, cooperativas, empresas e garimpeiros para discutir melhorias no ambiente de trabalho e fortalecer uma cultura de prevenção no Garimpo Bom Futuro

3 de setembro de 2026, às 11h43 - Tempo de leitura aproximado: 8 minutos

No Garimpo Bom Futuro, em Ariquemes, onde o trabalho faz parte da rotina e muitas histórias de vida se confundem com a própria atividade mineral, uma discussão começa a ganhar espaço: como produzir com mais segurança, preservar vidas e construir um ambiente de trabalho melhor para quem está na mineração?

Foi nesse cenário que o presidente do Crea-RO, Eng. Edison Rigoli, acompanhado do coordenador-geral do Conselho, Eng. Siguimar da Cruz, esteve no Garimpo Bom Futuro para participar das discussões da Câmara Setorial. A iniciativa reúne representantes do Ministério do Trabalho e Emprego, Crea-RO, Ministério Público do Trabalho, cooperativas, empresas e trabalhadores em torno de um objetivo comum: buscar melhorias nas condições e no ambiente de trabalho da atividade mineral.

A iniciativa também resgata uma história que começou décadas atrás. Segundo o auditor-fiscal do trabalho Juscelino José dos Santos, o Ministério do Trabalho já tinha uma relação antiga com o Bom Futuro. Na década de 1990, uma força-tarefa conseguiu enfrentar um dos problemas mais graves da época, o trabalho infantil. O resultado foi reconhecido, inclusive, com um prêmio da Unesco aos auditores envolvidos na ação.

Auditor-fiscal do trabalho Juscelino José dos Santos

Mas, para Juscelino, havia uma outra dívida a ser enfrentada.

“Em relação ao meio ambiente de trabalho, ficou muito a desejar. Não se trabalhou essa questão como deveria”, explica o auditor. Agora, a proposta é retomar esse olhar, mas de uma forma construída em parceria com as instituições e com quem vive diariamente a realidade da mineração.

A Câmara Setorial estabeleceu um prazo de 180 dias para que as adequações sejam realizadas. O período vale para cooperativas, garimpeiros e demais ambientes de trabalho alcançados pela iniciativa. Depois desse prazo, uma nova fiscalização deverá verificar o que foi efetivamente corrigido.

A mensagem é direta: segurança não pode ficar apenas no papel.

Entre a tradição e a mudança

Garimpeiro Ivanilto Silva Cunha, do Garimpo Maçangã

Para quem trabalha no garimpo, a discussão mexe com uma realidade construída ao longo de gerações.

O garimpeiro Ivanilto Silva Cunha, do Garimpo Maçangã, considera importante a presença dos órgãos de fiscalização e das instituições no processo. Para ele, sem orientação e acompanhamento, principalmente os pequenos empreendimentos podem acabar deixando o bem-estar dos trabalhadores em segundo plano.

“Se não tiver alguém para organizar e estar inspecionando, as pequenas empresas não vão dar uma grande importância ao bem-estar do funcionário”, afirma.

A preocupação ganha ainda mais significado quando o assunto chega à família.

Ivanilto é pai de dois filhos, hoje adultos. Um deles é piloto e a outra cursa Direito. É justamente pensando no futuro das novas gerações que ele enxerga importância na discussão sobre segurança e condições de trabalho.

Mas o debate sobre o trabalho infantil revela também uma questão delicada: a distância entre a tradição das famílias que vivem da mineração e as regras de proteção ao adolescente e à criança.

Garimpeiro Gilberto Cândido, também do Garimpo Maçangã

O garimpeiro Gilberto Cândido, também do Garimpo Maçangã, concorda que é preciso proteger crianças e jovens, mas defende que o tema seja discutido considerando a realidade das famílias que vivem da atividade mineral e rural.

Para ele, existe uma diferença entre exploração e aprendizado dentro da própria família.

“Não é escravizar. É um aprendizado”, argumenta, ao defender que os pais possam transmitir aos filhos os conhecimentos adquiridos ao longo da vida.

A fala de Gilberto mostra que, além das normas, existe um desafio cultural. Não basta apenas dizer o que pode ou não pode. É preciso dialogar com quem está no território, compreender sua realidade e mostrar por que determinadas medidas existem.

E, na mineração, esse convencimento pode significar salvar vidas.

Na mineração, prevenção pode fazer a diferença entre voltar para casa ou não

Engenheiro de Minas Sérgio Eduardo de Almeida, responsável técnico pela MetalMig, na região da Floresta do Jamari.

O engenheiro de Minas Sérgio Eduardo de Almeida conhece de perto os riscos envolvidos na atividade. Responsável técnico pela MetalMig, na região da Floresta do Jamari, ele acompanha uma operação que, segundo ele, já mantém programas voltados à segurança dos trabalhadores e à conservação ambiental.

A empresa possui Programa de Gerenciamento de Riscos e ações de controle ambiental, além de atuar na região desde 2010.

Para Sérgio, porém, segurança não pode ser tratada apenas como uma obrigação documental. Ela precisa se transformar em comportamento.

“A questão da segurança na mineração precisa ser tomada como um desenvolvimento cultural dos mineradores”, destaca.

É justamente aí que ele vê a importância da Câmara Setorial.

Imagens do Garimpo de Bom Futuro, Ariquemes – Fonte: Google.

A presença conjunta do Ministério do Trabalho, cooperativas, empresas e profissionais permite que a discussão deixe de ser apenas uma fiscalização pontual e passe a contribuir para uma mudança de cultura.

Os riscos são conhecidos. Eletricidade, máquinas, deslizamentos de taludes e outras situações podem provocar acidentes graves, e, muitas vezes, fatais.

Por isso, segundo o engenheiro, a segurança precisa estar presente não apenas nos equipamentos e procedimentos, mas também na maneira como o trabalhador enxerga o próprio trabalho.

“É algo que precisa ser implementado não só fisicamente, mas mentalmente nas pessoas, para que elas adquiram essa cultura de segurança”, resume.

Engenharia como aliada da segurança

É nesse ponto que entra a contribuição do Crea-RO.

O presidente do Conselho, Eng. Edison Rigoli, colocou a estrutura profissional do Sistema Confea/Crea à disposição da iniciativa, especialmente para auxiliar na identificação e no gerenciamento dos riscos existentes nos ambientes de trabalho.

A proposta envolve profissionais habilitados para atuar em áreas como trabalho em altura, espaços confinados, elaboração de planos de gerenciamento de riscos e outras situações que exigem conhecimento técnico especializado.

Para Rigoli, não existe segurança feita apenas de documentos.

“Você precisa efetivamente trabalhar, e tem que ser no local. Não existe segurança de escritório, não existe segurança só de documento”, afirma.

Na prática, isso significa olhar para cada realidade, identificar os riscos, medir, avaliar e propor soluções adequadas. A engenharia, nesse processo, deixa de ser apenas uma exigência formal e passa a cumprir uma função essencial: prevenir acidentes e preservar vidas.

O presidente também destacou que o Crea-RO possui profissionais registrados em diferentes municípios e modalidades, que podem ser localizados por meio do sistema de busca disponibilizado pelo Conselho. Para encontrar esses profissionais, basta acessar o site do Crea-RO e procurar pela ferramenta “Busque um Profissional”, onde é possível consultar profissionais por cidade e modalidade.

A ideia é aproximar quem tem o conhecimento técnico de quem precisa transformar esse conhecimento em segurança dentro do ambiente de trabalho.

Uma construção que depende de todos

Auditore-fiscais do trabalho

O prazo de 180 dias estabelecido pela Câmara Setorial representa mais do que uma data para uma nova fiscalização. É uma oportunidade para que cooperativas, garimpeiros, empresas e profissionais revejam procedimentos e façam as mudanças necessárias.

Ao final desse período, os ambientes que ainda apresentarem situações de risco que não tenham sido solucionadas poderão ser interditados.

Mas o objetivo, segundo os participantes, não é simplesmente chegar ao fim do prazo com uma lista de irregularidades.

É fazer com que, quando os representantes das instituições retornarem ao Bom Futuro, encontrem uma realidade diferente.

Uma realidade em que o trabalhador saiba reconhecer o risco antes de se colocar diante dele. Em que o uso de equipamentos de proteção seja parte da rotina. Em que máquinas, instalações elétricas e estruturas sejam avaliadas tecnicamente. Em que empresas e cooperativas entendam que produtividade e segurança precisam caminhar juntas.

E, principalmente, em que nenhuma família precise esperar uma tragédia para perceber a importância da prevenção.

No Bom Futuro, a discussão sobre segurança do trabalho começa, portanto, muito além das normas. Ela passa pela memória de quem viveu os desafios do garimpo, pela preocupação dos pais com os filhos, pela experiência dos trabalhadores e pelo conhecimento dos profissionais.

É uma mudança que não acontece de um dia para o outro.

Mas pode começar com uma conversa, e, desta vez, essa conversa reúne quem fiscaliza, quem trabalha, quem produz e quem tem conhecimento técnico para ajudar a transformar o ambiente de trabalho.

A iniciativa também faz parte de uma agenda mais ampla de diálogo e prevenção. Além da Câmara Setorial realizada no Garimpo Bom Futuro, outra Câmara Setorial, voltada à atividade de silos, também aconteceu em Ariquemes, reunindo instituições e profissionais para discutir os riscos e as condições de segurança relacionados ao setor.

Porque, no fim das contas, o resultado que todos esperam é o mesmo, que o trabalhador entre no garimpo para trabalhar e possa voltar para casa em segurança.

 

Narah Braga – A. Comunicação do Crea-RO.